Coordenadora fala sobre desafios e conquistas da população de rua

Coordenadora fala sobre desafios e conquistas da população de rua

Maria Lúcia dos Santos Pereira, atual coordenadora do Movimento da População em Situação de Rua na Bahia e integrante da coordenação nacional do movimento, nasceu em 14 de janeiro de 1967, em Itapetinga, interior da Bahia. Ela perdeu os pais aos três anos e foi criada por duas senhoras em Salvador, mas elas morreram quando Lúcia era ainda uma criança, tirando dela uma vida equilibrada com conforto, atenção e escola. Sem se adaptar nos abrigos públicos, ela foi para as ruas, onde as injustiças fizeram nascer uma grande revolta, logo transformada em força para a militância. Logo a luta pelos que não têm um lar tornou-se prioridade e em nome dessa batalha ela se livrou do álcool e das drogas, concentrando esforços na trajetória que resultou na criação do movimento em defesa dessa população na Bahia.

Como tornou-se uma pessoa em situação de rua?

Meus pais faleceram quando eu tinha três anos e minha avó não tinha condições de ficar com a gente e acabou “distribuindo” um pouco: mandou dois para São Paulo, um para Amargosa, uma veio para Salvador para trabalhar de empregada doméstica com duas senhoras e eu fiquei na casa de vizinhos, em Itapetinga. Essas duas senhoras souberam da minha situação e mandaram me buscar; então morei doze anos com elas… tendo uma vida organizada, estudando em bons colégios, até que elas faleceram. Como minha irmã não tinha condições de tomar conta de mim, eu acabei indo para o Juizado de Menores. Só que eu não gostei muito do tratamento, porque era um mundo completamente diferente do meu: um quarto para quarenta pessoas, quando eu tinha o meu quarto sozinha; aquelas regras… Não tinha a possibilidade de continuar meu estudo. Então foi tudo muito complicado, e para mim foi um choque muito grande ter aquela vida de uma hora pra outra. Com isso, eu fugi. Aí eu fui pra rua e conheci a galera de rua.

O que te levou a virar uma militante da população que está nas ruas?

A revolta. A revolta pelo jeito que as pessoas tratavam os que estavam em situação de rua, o desprezo, o preconceito... Os comerciantes que pagavam a polícia para espancar a gente. Mas, o que fez com que despertasse uma raiva muito profunda, foi um dia quando nós fizemos uma catação - porque na rua a gente cata muito no lixão. O Paes Mendonça de Nazaré tinha derramado várias coisas: iogurte, frutas, verduras… então foi um dia de farra. Nós subimos todos juntos e fizemos uma das melhores catações. A gente pegou tanta alimentação que a gente ia passar pelo menos uns quinze dias sem precisar catar nada - e, quando foi de madrugada, chegou uma kombi da prefeitura com alguns “educadores”, como eles chamavam, armados, então eles foram nos acordando debaixo de cacetada... Eles colocaram a gente na kombi, queimaram tudo que era nosso, jogaram toda a nossa comida fora… Levaram pro galpão da leste, simplesmente para levar de um lugar para o outro, pois quando chegou lá, a gente teve que vir andando, de madrugada e debaixo de chuva. Aquilo estava errado, a gente não tinha feito nada. E aí comecei a criar dentro de mim este desejo de mudança. Foi aí que eu conheci o Conselho de Psicologia, o Sindicato dos Bancários, que começaram a levar a gente para os locais para que pudéssemos falar um pouco da situação da população de rua. Então teve um fórum pra discutir sobre quem era a população de rua e eu comecei a me envolver. O pessoal também começou a perceber que eu tinha um tipo de autoridade, eu falava e eles escutavam, a partir daí as coisas foram acontecendo de forma muito tranquila. Eu fui uma das escolhidas para organizar o primeiro encontro de catadores de materiais recicláveis e a primeira marcha da população de rua. Conseguimos levar dois ônibus e quando eu voltei fiquei com vontade de me aprofundar cada vez mais, porque eu vi que ali era uma forma das pessoas poderem nos escutar. Mas, aí eu percebi também que para começar a fazer alguma coisa mesmo, eu tinha que parar de beber, que parar de usar drogas… Então foi aí também que eu comecei um processo de recuperação. Passei três anos e meio afastada disso tudo pra me conhecer melhor, para cuidar um pouco da minha recuperação. Em 2005 voltei com força total!

Qual o caminho da trasformação da militante em coordenadora do movimento na Bahia e uma das coordenadoras nacionais?

Eu já tinha um papel de líder aqui em Salvador. Mesmo eu passando este três anos e meio em Aracaju, eu vinha aqui duas vezes no ano. A primeira coisa que eu fazia era tirar a mochila e ir para a rua para ver como é que o pessoal estava, reatar os laços, ver o que estava acontecendo, conhecer um pouco cada um deles, ver as suas necessidades, enfim procurava sempre ajudar e estar perto deles. Eu terminava sendo referencial para o pessoal, porque eu tinha me casado neste tempo, eu poderia estar olhando pra eles e deixando para lá, mas não dava, tem uma coisa mais forte que me puxa e eu não sei explicar bem o que é. Eu comecei também a fazer vários trabalhos que fossem voltados para a população de rua, ajudei na coordenação da Comunidade da Trindade, um local que acolhe a população de rua. Depois fizemos o Projeto Levanta-te e Anda, que eu também fui uma das coordenadoras. Escrevi sobre a população de rua no jornal Aurora da  Rua e as pessoas do movimento nacional já me conheciam, por conta desta liderança que eu tinha, e me convidaram para elaborar a Política Nacional, participar das discussões… Quando foi em 2010, eu fundei o movimento aqui em Salvador.

E como foi a aceitação dessa liderança?

Na sociedade civil eu encontrei resistência, pois eles não acreditavam que o movimento pudesse tomar a proporção que tomou. Eles não acreditaram que a gente pudesse passar do primeiro ano e nem que a gente pudesse ter tantas conquistas. Um grupo de pessoas que vieram da situação de rua para discutir política? Um grupo de pessoas, muitas delas que não tiveram formação acadêmica, discutindo, dando trabalho, incomodando tanto, reivindicando tantas coisas… pra eles foi meio conflitante. Mas, fomos conquistando nosso espaço pouco a pouco. O movimento aqui em Salvador tem um diferencial: a gente não só reivindica as coisas do governo dentro da área política, nós também fazemos. A gente trabalha não apenas nos direitos da população de rua, mas também conscientizando nos deveres. Para você ter uma ideia, nós colocamos as primeiras 52 pessoas dentro do Programa Minha Casa Minha Vida, não tivemos quase nenhuma desistência. Muita gente diz que não se poder dar casa para população de rua, porque eles perdem a casa e a gente tá aí pra provar que, muito pelo contrário, pra eles é o maior bem que têm na vida.

Quando a Bahia começou a despertar para a causa da população de rua? Quais as principais conquistas desde então?

Há três anos ainda não se discutia a questão aqui na Bahia, a não ser de uma forma assistencialista ou em alguma igrejas que representavam a população de rua. Hoje em dia não, hoje em dia nós somos chamados. Falou em população em situação de rua, tem o movimento, então agora somos pessoas respeitadas. Em muitos espaços deixou de ser tabu discutir população em situação de rua. Atualmente temos a política municipal... a política estadual, que está aí pra ser assinada; o comitê intersetorial, que vai ser implantado agora para o acompanhamento e monitoramento da política municipal; o programa Bahia Acolhe, que foi uma conquista do movimento, por conta desta articulação política que fizemos. Nós já temos um braço nosso em Feira de Santana... A questão a nível nacional… o respeito pela mulher... Quando eu cheguei na coordenação do movimento, era um grupo mais masculino. Mulher, negra, ex-moradora de rua dentro de uma área onde os homens são maioria? Então travaram um pouco, a gente teve que peitar a nossa entrada e, em 2011, a gente percebeu que eles começaram a ter este outro tipo de olhar… Atualmente, pelas ações que a Bahia faz, o estado é respeitado dentro dos ministérios e somos chamados para diversos estados para discutir a política nacional da população de rua. Assim, além de nos fortalecer aqui, a gente leva, num bom sentido, o nome da Bahia para fora.

E no cenário nacional, quais os destaques?

Nós tivemos no mês de julho um seminário internacional para discutir situação de rua, onde nós tivemos a França, a Argentina, os Estados Unidos, dentre outros países, que vieram discutir a questão com o Brasil, onde nós pudemos trocar informações. Lançamos agora uma cartilha para mostrar à polícia uma outra forma de abordagem com a população de rua. O Ministério da Saúde estava aqui para discutir como é a tuberculose na população de rua, juntamente com as secretarias estadual e municipal. Nós tivemos diversos avanços. O IBGE agora vai começar a primeira contagem em Recife e no Rio de Janeiro. Nós temos diversas portarias voltadas para população em situação de rua, como ter consultório na rua, não precisar mais de comprovante de residencia para ter cartão do SUS… Vários estados hoje em dia estão discutido a população em situação de rua, as coisas estão acontecendo de uma forma muito rápida… Hoje as pessoas ainda continuam violando os direitos da população de rua, mas pensam duas vezes antes de fazer alguma coisa, porque hoje nós temos o Centro Nacional de Direitos Humanos da População de Rua e dos Catadores de Materiais Recicláveis. Hoje, a gente está muito em Brasília. Nós temos reuniões do comitê interministerial de 40 em 40 dias, somos titulares do Conselho Nacional da Assistência Social. Já imaginou? Um ex-morador de rua em um conselho nacional, como titular?...Nós somo suplentes do Conselho Nacional de Saúde... São avanços que a gente foi conquistando e a gente sabe que estes avanços aconteceram por causa dessa política nacional e dessa pressão que estamos fazendo.

Quais são os equívocos que ainda persistem?

Os equívocos que ainda persistem são mais relacionados à sociedade. A nossa sociedade ainda tem um preconceito muito grande, ainda não sabe o que é população em situação de rua, ainda pensa que a pessoa está lá porque deseja, que é uma turma de vagabundo que não quer trabalhar… Por isso, agora a nossa luta é pra ter uma campanha a nível nacional para mostrar à sociedade quem é a população em situação de rua. Precisamos tirar este estigma criado sobre quem mora nas ruas. Quanto aos poderes públicos, ainda acho que as secretarias de habitação deveriam ouvir mais o Movimento da População em Situação de Rua. Temos o conflito de não ter moradia para todos, além disso ele costumam achar que é só dar a casa, mas nós pensamos de uma forma diferente. O movimento agora está fechando uma parceria com a Unijorge e a Faculdade São Bento, porque a gente percebe que precisa da pré e da pós moradia… porque você precisa ter habitação sim, mas... como esta pessoa está de saúde? Qual o trabalho que esta pessoa tem para se sustentar dentro desta casa?... O movimento trabalhou na primeira etapa com 52 pessoas e agora nós estamos com 133. A gente só começa a fazer novas aquisições quando a gente entrega estas, porque a gente capacita para ter a casa, desde as regras básicas do que é pagar luz, água e condomínio, como as regras de boa convivência. Paralelo a isto, a gente procura capacitar esta pessoas e incluí-las no mercado de trabalho, para que estas pessoas tenham como sobreviver ao receberem suas casas. E as secretarias não pensam sobre isto. Elas acham que é muito difícil trabalhar de forma intersetorial, acham que fazem a parte delas e pronto, não se articulam com as secretarias de trabalho, saúde, e outras, para poder ver a demanda como um todo. Então, com relação a isto, eu acho que eles têm muito a aprender com o movimento.