Senge-BA destaca trajetória profissional de Maria

Senge-BA destaca trajetória profissional de Maria

De 200 alunos, apenas oito mulheres se formaram na turma de Engenharia Civil de 1973 da Escola Politécnica da UFBA. Entre elas, estava a deputada estadual Maria del Carmen, que falou ao jornal do Senge-BA sobre os desafios que as mulheres já venceram e os obstáculos por superar no exercício da engenharia. Casada e mãe de quatro filhos, a engenheira e líder política se diz privilegiada por ter um companheiro que a incentivou no crescimento profissional e que sempre compartilhou as responsabilidades familiares. “Infelizmente o comum é a mulher sofrer com a dupla jornada. Meu marido dividiu as tarefas domésticas comigo, ele levava nossos filhos ao colégio, cuidava deles quando estavam doentes. Isso me permitiu como engenheira ter galgado todos os patamares de crescimento profissional. Ele sabia que assim eu seria feliz”, relata. Nessa entrevista, a deputada fala sobre os avanços e desafios ainda a serem superados pelas mulheres profissionais da Engenharia, sobre as dificuldades de enfrentamento do assédio moral e o papel das empresas, instituições públicas e sindicatos na luta pela igualdade de gênero. Confira!

SengeBA – Por anos, a Engenharia foi estereotipada pelo “senso comum” como uma profissão masculina. Essa mentalidade mudou ou as Engenheiras ainda enfrentam resistências no mercado de trabalho?
Deputada Maria del Carmen (M.C) - Acredito que a engenheira ainda sofre resistências no mercado. Embora sejam mais reduzidas, pois as mulheres estão cada vez mais inseridas no mercado e exercendo a profissão de engenheira, inclusive, atuando no campo, na obra propriamente dita, e não somente nas posições de coordenação de projetos e acompanhamento de obra. Recentemente, visitei uma obra e quem estava no campo era uma Engenheira. Na época que fiz a graduação de Engenharia Civil, quando entrei na faculdade, de 200 alunos do curso só havia oito mulheres. E delas, fui a que mais próxima estive de obras, realizando a fiscalização diretamente no campo. As demais atuaram em escritórios, laboratórios, na parte de cálculos, mecânica dos solos ou acompanhamento de projetos. Mas creio que essa mentalidade vem se transformando. Os homens começaram a perceber, e já é mais fácil a gente verificar, que as mulheres são capazes de atuar não somente como Engenheiras, mas como técnicas e trabalhadoras da área da construção civil. Podemos exercer a função com alta qualidade, por vezes, até mais observadoras e cuidadosas na atividade profissional.

SengeBA – As empresas e instituições da área têm acompanhado essa transformação?
M.C – Muitas empresas ainda precisam mudar a mentalidade sobre a atuação da mulher na área de Engenharia. Temos muito mais mulheres profissionais na área da tecnologia. É um momento de transformação no país. O Brasil tem uma mulher como presidenta da República, que foi Chefe da Casa Civil e ministra de Minas e Energia, o que demonstrou a importância da mulher na área de tecnologia e o quanto são capazes de exercer posições de comando. As empresas precisam está preparadas para esse novo momento. Apesar dos avanços, a mulher profissional ainda sofre restrições do mercado pelo fato de ser mãe, de ser a responsável por cuidar dos filhos quando estão doentes, de levá-los e buscá-los na escola, pois não conta com a ajuda do companheiro nas tarefas domésticas. Se a mulher falta ao trabalho devido às dificuldades domésticas, as empresas entendem que está causando um prejuízo, então priorizam empregar o homem. A mulher sofre ainda com essa dupla jornada, porque são raros os companheiros que compartilham essas responsabilidades familiares. Fui privilegiada por tem um companheiro que dividiu comigo, ele levava nossos filhos à escola, cuidava deles quando estavam doentes. Isso me permitiu como engenheira, ter galgado todos os patamares de crescimento na profissão.

SengeBA – A dupla jornada é uma das dificuldades que a mulher profissional da Engenharia ainda enfrenta para conseguir trabalhar no campo de obra, por exemplo?
M.C – Sim, infelizmente, não é comum os homens aceitarem, por exemplo, que a mulher esteja até mais tarde no campo de obras. Há uma separação clara nesse processo. As mulheres são muito presentes na Engenharia, mas na parte de planejamentos, de projetos, de fiscalização, de acompanhamento, de supervisão, muito mais do que na área da execução propriamente, que necessita da presença no campo, por vezes durante uma noite inteira, fazendo “concretagem” numa determinada área, acompanhando a montagem de uma estrutura etc.

SengeBA – Exercer cargos de chefia e direção, ainda é um desafio para as Engenheiras?
M.C – Um dos problemas que ampliam todo esse processo é que as empresas de engenharia ainda são predominantemente geridas por homens. As empresas têm uma visão masculina de todo esse processo, o que na maioria dos casos, é uma visão machista. As mulheres vão ocupando esses cargos médios, intermediários. Os cargos onde ela vai exercer o poder efetivo, o poder de decisão, são muito difíceis de alcançar, porque entre um homem e uma mulher, ainda escolhem o homem. Na visão machista, o homem é o mais confiável, é o que tem maior capacidade de liderança, que poderá se dedicar integralmente porque não se responsabiliza com as tarefas domésticas. No período que estive na Conder, quando aconteciam as licitações com empresas para realização de obras, não me lembro de ter conhecido uma mulher como dirigente, na posição de mando. Na esfera pública, não me lembro de uma mulher como secretária da Fazenda, de Infraestrutura, como presidenta do Derba, da Embasa.

SengeBA – Como as entidades profissionais da categoria têm se posicionado sobre a igualdade de gênero no mercado de trabalho?
M.C – Ainda, infelizmente, como a maioria dessas entidades também é gerida por homens, são poucas as ações comprometidas nesse sentido. As entidades profissionais ainda têm posições machistas. A gente presenciou isso no 9º Consenge (Congresso Nacional dos Sindicatos de Engenheiros), quando não conseguimos aprovar a garantia de pelo menos um terço de vagas para mulheres nos cargos de direção da Fisenge (Federação Interestadual de Sindicatos de Engenheiros). Inclusive, houve resistências de algumas engenheiras. Ou seja, por vezes o machismo está enraizado nas próprias mulheres, porque ainda não se veem disputando os mesmos espaços de poder com os homens.

SengeBA –  O questionamento sobre o poder de liderança feminino, fruto do machismo, dificulta a percepção da mulher sobre o assédio moral?
M.C – Todo esse processo dificulta a garantia da igualdade de direitos, de entender essa paridade, e claro, de identificar o assédio moral. Uma mulher, para ocupar determinada função, principalmente de liderança, é cobrada em demonstrar mais capacidade, mais dedicação e produtividade do que um homem. Muitas vezes o assédio acontece fazendo a profissional acreditar que não está preparada para assumir o comando de uma função. Imagine que por ser mulher, uma engenheira pode ser pressionada quanto a sua capacidade de dar ordens, de coordenar e de se fazer respeitar por uma equipe de operários, a maioria homens. Isso não deveria ser tratado como uma condição ao gênero, mas sim, a capacidade de liderança, que independe se é homem ou mulher. Tem muitas mulheres que lideram muito bem uma equipe e podem fazer isso tão bem, ou melhor, do que homens.

SengeBA –  O que precisa mudar para se enfrentar e combater o assédio moral?
M.C – Primeiramente, nós mulheres precisamos nos reconhecer como capazes de assumir qualquer espaço no mercado de trabalho e que devemos ter a garantia dos nossos direitos assegurados. Precisamos superar o nosso próprio machismo para lutar por essa igualdade de gênero no mercado de trabalho e cobrar do poder público o cumprimento do que já está estabelecido por lei. Não é uma tarefa fácil, apesar dos avanços. Na engenharia ainda há áreas que as mulheres têm dificuldades de ocupar espaços. Há toda uma luta para se tipificar o assédio moral como crime, que é difícil não somente de ser definido, mas também de ser comprovado. O assédio moral acontece em diversas maneiras, desde o tratamento discriminatório até o impedimento de um avanço no cargo, da ascensão profissional. Por vezes, a mulher se submete a todo esse constrangimento por uma questão de sobrevivência, porque precisa do emprego. A transformação dessa realidade também perpassa pela educação familiar e escolar que ainda é machista. Isso é exemplo nas menores coisas, damos o carro para o menino, símbolo de poder, ou a bola, que deve ser utilizada com o público, o externo. Para a menina é a boneca, o joguinho de panelas, o ferrinho de passar roupas, símbolos do privado, do lar e da maternidade.

SengeBA – A Assembleia Legislativa da Bahia (ALBA) conta com a Comissão de Direito da Mulher, quais os avanços e dificuldades ainda a serem superadas pela comissão?
M.C – A Comissão tem trabalhado efetivamente na luta contra a violência física sofrida pela mulher. Na Bahia, os dados ainda são assustadores, ocupamos o 5º lugar no ranking nacional de denúncias de violência contra mulher. Ainda temos muito para avançar. Precisamos de mais delegacias das mulheres, de pessoas preparadas para atendimento nessas delegacias, do aumento de varas especializadas, ou seja, de uma rede de instituições jurídicas e governamentais para garantir a proteção da mulher. Outra ação bastante divulgada foi a proposta de proibir que instituições públicas contratem bandas com músicas depreciativas da imagem feminina.